sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O fundamento da lei natural

«Falar de direitos inegociáveis é falar de princípios absolutos e universais. Dizer que estes princípios são universais significa dizer que são válidos sempre e em toda a parte, no tempo e no espaço; admitir que possam ser modificados conforme os tempos e os lugares significa afirmar a sua relatividade.
Em que se funda o carácter absoluto e universal destes princípios? Funda-se na existência de uma natureza humana que não muda, que permanece igual a si mesma, no tempo e no espaço. Numa palavra, os valores inegociáveis têm como fundamento a lei natural.
O que é a lei natural? A lei natural é uma lei objectiva, inscrita na própria natureza do homem - não deste ou daquele homem, mas na natureza humana considerada em si mesma, na sua permanência e na sua estabilidade. Foi Deus, criador do homem, quem inscreveu esta lei na natureza humana. São Tomás de Aquino definiu-a como "a própria lei eterna impressa na criatura racional" ("Nihil est aliud quam participatio legis aeternae in rationali creatura"). "Não há nas leis humanas", afirma São Tomás, "nada que seja justo e legítimo que não derive da lei eterna".
Esta lei, consubstanciada no Decálogo, a tábua dos Dez Mandamentos comunicados pelo Senhor a Moisés no Monte Sinai, não é negada - mas completada - pela lei do Evangelho. Jesus não veio abolir, mas "dar cumprimento" à lei natural (Mt 5, 17). Com efeito, a lei suprema do Evangelho é a lei do amor, mas é o próprio Senhor quem admestoa os seus ouvintes: "Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama, e aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele" (Jo 14,21).
Como ser racional que é, o homem tem capacidade para "ler" a lei natural, ou seja, é capaz de a reconhecer e tem a obrigação de a ela se adequar. Assim, o legislador humano não "cria" a lei, antes a "descobre" na ordem natural e na vontade divina, legislando em coerência com ela.
Henri de Brachton, um importante autor medieval (c. 1216-1268), afirma no seu De legibus et Consuetudinibus Angliae que todos os homens estão submetidos aos reis, não estando os reis submetidos senão a Deus - e, acrescenta logo a seguir, à lei, porque é a lei que faz o rei: "Ipse autem rex non debet esse sub homine, sed sub Deo et sub lege, quia lex facit regem."


In "A Ditadura do Relativismo" - Roberto de Mattei

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A política podre abrilina

A situação político-económica portuguesa tornou-se um pântano. Não há troika que nos valha, nem a austeridade resolverá o que quer que seja. Só na cabeça de uns burrinhos é que a austeridade resolverá alguma coisa.
 
Chegou a hora da seita democrática pagar pelo que fez ao país e aos portugueses. Basta, chega, estamos fartos das políticas de merda dos nossos (des)governantes. Se eles pensam que vão continuar a fazer asneiras e a roubar impunentemente, estão bem enganados. As falências e encerramentos de empresas serão aos milhares e a receita fiscal vai continuar a baixar, inapelavelmente, até atingir níveis escabrosos...
 
Entre Janeiro e Julho de 2012 saíram de Portugal mais de 250000 pessoas! E mais sairão, é inevitável. O país vai afundar-se cada vez mais, a receita fiscal está  a cair a pique, embora os mentirosos e crápulas digam que não, mas isso de nada lhes adiantará. Quando se aperceberem do que andaram a fazer ao país, e quando os portugueses tiverem a noção exacta do que se está a passar, essa cabronada irá passar um mau bocado. Preparem-se, pois a "tampa" vai saltar, e os efeitos colaterais serão muitos, inclusive para a "seita democrática".
 
Isto vai ser pior do que uma bomba de neutrões, vai começar tudo à chapada e não falta muito para isso começar a acontecer. Não é por acaso que a "seita democrática" está muito apreensiva e já mandou reforçar a segurança de alguns FDP cá do sítio. Mas nem assim se safarão. Vai haver mostarda, e da grossa!!!
 
Não há solução para este país, um golpe de estado aproxima-se a passos largos. Este assunto já provoca arrepios na espinha a muitos "cagões democráticos", eles não perdem pela demora, vai haver ranger de dentes e remorsos à mistura. A bomba está prestes a estourar e os efeitos serão pesadíssimos para todos. 
 
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Droit et politique chez Eric Voegelin

«De l´institutionnalisme d´Hauriou et du décisionnisme de Schmitt, Voegelin retient le refus de l´hégémonie de la science juridique sur la science politique:
 
Il était manifestement impossible de traiter des problèmes de l´État et de la politique en général, en omettant tout sauf la logique des normes juridiques. Par conséquent, ma divergence par rapport à Kelsen se développa du fait de mon intérêt pour les matériaux d´une science politique qui avait été exclue de la théorie politique, entendue au sens de théorie du droit [...]. Il me semblait que la tâche d´une science politique à venir davait consister à reconstruire la science politique dans toute son étendue après qu´elle eut été réduite au noyau de la Normlogik.
 
 
Le premier article de Voegelin, daté de 1924, est rédigé sur le ton d´une discussion entre un disciple et son maître. Voegelin pointe cependant d´emblée un problème qui va dans ses écrits ultérieur justifier l´exigence d´une théorie métajuridique de la politique. Pour Kelsen, ce qui distingue une norme juridique d´une autre norme (morale ou religieuse par exemple), c´est son caractère contraignant. la norme juridique se présente sous la forme d´un jugement hypothétique qui lie deux normes différentes. La première (que Kelsen apelle «norme secondaire»), hypothétique, qui ordonne ou interdit telle ou telle conduite humaine est la condition d´application de la seconde (la norme «primaire»), qui ordonne la contrainte de la part des organes étatiques. Structurellement donc, la norme étatique se présente da la façon suivante:
 
Si un homme se comporte d´une manière déterminée, c´est-à-dire s´il fait quelque chose de déterminée ou s´il s´abstien de le faire, un autre homme, à savoir l´organe de l´État, doit produire contre le premier un acte de contrainte.
 
 
La norme juridique n´a ainsi pour objet immédiat que la relation entre l´État et ses organes: la violation de la règle n´est que la condition d´application de la norme et la sanction n´en est que la conséquence. Mais qu´appelons-nous ici «État» sinon le point d´imputation des différentes normes primaires, au sens où ce qui est appliqué par un organe étatique l´est, fictivement, par «l´État»? Inversement, qu´est-ce qui rend légale l´action de contrainte exercée par tel ou tel individu, sinon le fait qu´il soit considéré comme un organe étatique juridiquement habilité? Le positivisme normatif se meut ainsi à l´intérieur d´un cercle logique: un ordre normatif n´est juridique qu´en référence à la contrainte exercée par les organes de l´État; mais l´organe étatique ne se définit lui-même que par sa conformité aux prescriptions du droit. Ou, pour dire les choses autrement, une norme n´est juridique que si elle se rapporte à une contrainte de la part des organes de l´État que s´ il agit conformément aux normes juridiques.»
 
In "Voegelin - Symboles du politique", Thierry Gontier páginas 22 e 23.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A democracia enquanto símbolo arcaico

Num interessante livro, "Para Um Verdadeiro Governo do Povo" escrito pelo Professor Doutor Jacinto Ferreira em 1963, na páginas 13 e 14 lê-se o seguinte: «A palavra democracia designa em princípio, governo do povo pelo povo. No sentido mais rigoroso desta expressão «uma certa concepção da organização política das sociedades, como Estado, em que o poder de mandar, a soberania, são atributo e pertença exclusiva do povo. (...) Mas se nos dedicarmos a estudar o panorama político universal, no que diz respeito às formas de governação, encontraremos as mais díspares organizações, todas rotuladas DEMOCRACIA. E a incultura geral vai considerando essas organizações como formas modernas, formas avançadas no campo político, quando a verdade é que - como diz A. Frantzen - «o que se designa actualmente por democracia não é senão uma sobrevivência da época primitiva da sociedade humana.» Progresso? - pergunta este sociólogo. E logo responde: «Mas a maioria das formas de Estado, vigentes neste século, baseia-se nos postulados doutrinais, tão discutidos, do recuado século XVIII. A maioria dos Estados quer democráticos quer ultra-democráticos, há muito que estão fora da linha do ritmo de evolução.»
 
Queria chamar a atenção aos leitores para esta última frase, "A maioria dos Estados quer democráticos quer ultra-democtráticos, há muito tempo que estão fora da linha do ritmo de evolução."
 
Segundo o Prof. Dr. Moncada de Cabral, «uma coisa é a ideia e a essência da democracia, outra os valores humanos que, se pretendem servir em nome da democracia, outra ainda as diferentes formas e concretizações que, da tal ideia e de tais valores, historicamente têm sido alcançados ou tentados através das diversas formas da ideia de democracia e em diversos tempos.
 
Georges Burdeau dizia que a democracia de hoje é o regime que leva o poder a actuar como servidor das suas vontades.
 
Voltando ao Prof. Dr. Cabral de Moncada, e sobre o assunto: «Podem dizer-nos à vontade que o valor mais alto da democracia é a liberdade individual, e teremos o liberalismo; ou que é a igualdade de todos os homens, e teremos o igualitarismo; ou simplesmente na sua forma jurídica e política (revolução francesa) e económica (socialismo); outros dirão ainda que é o povo o valor mais alto da democracia, e que não interessa a forma, podendo até ser um partido único e tida como uma soberania como um fim em si mesma (totalitarismo democrático das mais diversas cores; fascista, comunista, etc.). Efectivamente, se por democracia compreendermos o regime do sufrágio universal, o regime do culto da incompetência, da tirania das maiorias, a palavra terá de nos ser profundamente antipática. 
 
O sublinhado é meu.
 
Voltando ao livro já citado no início deste post, na página 29 e seguintes diz-se:
 
« Disse não sabemos já quem, que nas épocas criadoras são as grandes ideias que exercem uma forte atracção sobre as massas. É incontestável que, entre os grandes ideais, o da liberdade suplantou e suplanta todos os outros, porque além das razões humanas que possui, tem também fortes vínculos de ordem religiosa.
Não foi a palavra liberdade inventada pela Revolução Francesa. A ela aspiravam os escravos em tempos recuados, e já os gregos davam como definição de ser livre, não ser escravo de quem quer que fosse, e de qualquer forma que fosse. Talvez porque da libertação nascia o direito de participação no Poder, segundo o pensamento de Cícero, a liberdade assumiu um significado político, de que a Revolução Francesa se tornou principal arauto, inscrevendo-a como o primeiro elemento da sua triologia, a par da igualdade e da fraternidade. (os sublinhados são meus, mais uma vez).
 
Ilusões da humanidade! Nunca houve menos liberdade do que a partir de então (1789); a igualdade permaneceu, através dos tempos modernos, a mesma utopia de sempre; e, quanto à fraternidade, jamais sequer, nela se pensou.»
 
As democracias modernas, segundo O Prof. Dr. Cabral de Moncada, continuam invariavelmente adaptadas ao sistema de divisão dos poderes, de Montesquieu. E querem chamar-se modernas, afirma surpreendemente Cabral de Moncada! O mesmo dizia ainda que eram bem conhecidas as democracias ditas populares, inventadas na sua denominação por alguém que decerto, não sabia grego, e não poderia portanto, repara no pleonasmo que a expressão encerra.
 

Espinoza - o panteísta geométrico

Baruch Espinoza nasceu em 1632, era de ascendência judaica e portuguesa.
Espinoza construiu um sistema filosófico tomando como ponto de referência as matemáticas, tratando das afeições e particularidades humanas como se de linhas, traços, superfícies, volumes, etc, desprezando todo e qualquer sentimento ou paixão. Quando um dia lhe perguntam (a Espinoza) se acreditava em Deus, a sua resposta não poderia ser mais elucidativa: «-Creio que Deus é a causa interna de tudo o que existe, mas não a causa externa».
 
Esta concepção de Deus exclui todo o factor pessoal, exclui também a metafísica e a moral. Espinoza revolta-se com a ideia de uma Providência Divina que cuida do mundo criado por Deus; opõe-se igualmente à ideia de uma utilidade na natureza, pois não pode pôr-se essa questão à matemática. Eis o motivo pelo qual a utilidade não ocupa qualquer lugar na filosofia de Espinoza.
 
Segundo este mesmo Espinoza: «Quando os homens se aperceberem de que o mundo era criado por eles, tiveram de formular conceitos do bem e do mal, da ordem e da desordem, do belo e do feio, etc. E os homens que se consideravam criaturas livres, viram nascer os conceitos de aprovação e desaprovação, de obras boas e do pecado.»
 
"Dizemos que uma coisa é boa para nós se ela nos for vantajosa, e não por ela ser boa em si própria", este o mote filosófico de Espinoza. Para além disto, o mesmo filósofo considera que uma coisa pode ser boa patra um, má para outro e indiferente para outro ainda. O que diga-se a verdade mostra na perfeição o carácter do indivíduo; o Deus de Espinoza não actua segundo «um plano» ou «intenções», mas age de acordo com a s leis eternas da sua natureza.
 
O Deus de Espinoza é panteísta, assim como a sua filosofia. O filósofo nega a existência de um Deus pessoal e nega também o livre arbítrio.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Légalité et légitimité chez Eric Voegelin

«Dans son autobiographie, Voegelin résume ainsi la critique du normativisme juridique développée dans L`État autoritaire de 1936:


                  Je rejetais là clairement non pas la «Théorie pure du droit», mais sa prétension à servir de substitut à une théorie politique. Il me fallait souligner l´inadéquation d´une théorie du droit pour la compréhension des problemes politiques et les conséquences destructices de la prétension selon laquelle l´on ne devrait pas ou l´on ne pourrait pas traiter scientifiquement des problèmes politiques.

Quelles sont ces conséquences «destructices» du normativisme Kelsénien? Il s´agit en premier lieu de l´élimination par la science «pure» du droit, de ces problèmes métaphysiques que Kelsen considère comme de faux problèmes. Mais la destruction prend aussi ici une signification politique trés concrète.
(...) Une autre distinction doit être prise en compte, celle qui oppose la légalité à la legitimité: lorsque le jeu des institutions démocratiques est instrumentalisé par des partis extrémistes en vue de détruire la démocratie elle-même, sauver la démocratie peut vouloir dire la défendre par la mise en place de mesures autoritaires, tels l´ajournement d´élections «dangereuses», la restriction da la liberté d´expression, le gouvernement par décrets présidentiels, la déclaration de l´état d´urgence, etc. (...) Par son attaque du normativisme, Voegelin prend indirectement parti pour le régime mis en place par Engelbert Dollfuss, qui a permis, au prix d´un coup d´état et d´une alliance avec L´Italie mussolinienne à l´écard du jeu politique les communistes et les nazis.»


In "Voegelin - Symboles du politique" - Thierry Gontier - páginas 32 e 33.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ladrolândia - a saga continua

Segundo números que foram recentemente noticiados (falta saber a sua validade), a Galp, uma das empresas que mais rouba em Portugal, aumentou os seus lucros no primeiro semestre deste ano em 59%!

A ser verdade, é uma coisa vergonhosa, que deveria dar direito a anos e anos de prisão.
Mas como somos governados por outro bando de ladrões, financiados e publicitados por empresas ladras como a acima mencionada, é tudo normal. Normalíssimo. É o petróleo que está em alta nos mercados internacionais.
Apetecia-me dizer, é a P*** que vos P****.

A bandidolândia, controlada pela maçonaria, merece uma lição. Mas esta lição tem de ser feita com categoria e inteligência, não com violências que nada resolvem. O que vou dizer de seguida poderá parecer de impossível realização, mas se os portugueses se unissem e boicotassem a compra de combustíveis nacionais durante 1 ou 2 semanas, os ladrõezecos até "cagavam de esguiche". A maçonaria e os seus capatazes "mijavam nas cuecas" de tanto pavor...

De seguida, os portugueses deveriam boicotar uma série de serviços e bens, sobretudo os grandes grupos económicos, e aí é que eram elas.
Sempre que necessário, os portugueses devem unir-se e boicotar os ladrões da Galp e restante séquito de cabrões amestrados. E quando chegar as próximas legislativas, novo boicote (aos partidos políticos), votando-se massivamente em branco.

Quanto à justiça, ou falta dela, para ser mais exacto, os cidadãos deveriam exigir uma mudança urgente da constituição portuguesa que peca por graves defeitos e inverdades. Não é á toa que vão surgindo, já há algum tempo,  pedidos de mudanças na constituição. Partidos como o bloco de esterco deveriam ser ilegalizados e os seus mentores encarcerados em manicómios de grau máximo.
Pessoas como José Sócrates, considerado por alguns doentes mentais como o melhor primeiro ministro de Portugal, deveriam pagar do seu bolso os estragos que causaram ao país.

Mas, já se sabe, um país controlado pelos maiores bandidos, onde as negociatas ruinosas para o país e para os Portugueses são norma, isso será muito difícil de conseguir. Embora os cidadãos o possam conseguir, não o querem porque vivem na ilusão da sua segurança (relativa) financeira e material. Nada mais falso.



Postais de Portugal - caminhos de S. Cristóvão

sábado, 11 de agosto de 2012

Renascença e humanismo - da metafísica do ser à metafísica do sujeito

Segundo alguns autores, o termo renascença foi inventado por Giorgio Vasari (1511-1574), pintor e arquitecto italiano, para exprimir o renascimento como «re-criação», do que parecia perdido e não apenas uma imitação dos modelos literários e artísticos da Antiguidade clássica.

Influenciados pelo novo termo e imbuídos de um espírito humanista, os pensadores desse século e dos seguintes, viam o regresso ao antigo mais como um meio e não como um fim, que serviria para modificar radicalmente a natureza humana e permitir ao homem libertar-se das amarras do passado. 

Para compreender na perfeição este processo precisamos de ter a noção que o renascimento foi precedido de uma série de outros renascimentos durante a Idade Média. A razão humanista começou a ser fabricada em plena Idade Média, quando a metafísica do ser foi gradualmente substituída pela metafísica do sujeito que preconiza o homem como centro do universo. Petrarca (1304-1374) foi um dos principais representantes do movimento da pré-renascença. As suas ideias viriam a ser cruzadas com filosofias como o neoplatonismo e o epicurismo. O que degenerou num misto de ideias até então inconcebíveis e impensáveis.

Maquiavel seria o primeiro a formular a distinção entre o ser e o parecer, e num golpe maquiavélico, uma nova etapa é formulada: o poder da magia começa a ceder à magia do poder. É o primeiro anúncio da modernidade.

No entanto, no norte de Itália, o sentido da razão humanista, imbuída de uma mentalidade crítica e reformadora, não renega a fé como o fizeram os estados do sul e centro de Itália. Erasmo de Roterdão (1469-1536), figura estranha com quem o nosso Damião de Goís privou, é um dos exemplos. No seu Elogio da Loucura, os desvarios da irracionalidade reinante não poupam Papas, Imperadores ou magistrados. Mais tarde, viria a unir-se a outros pensadores humanistas cristãos como Lefébvre d´ Etaples (1450-1536), Luís Vives (1492-1540) e Melanchton (1497-1560).

A doutrina renascentista valoriza o homem, o mesmo é transformado num microcosmo à escala perfeita de um macrocosmo. Nicolau de Cusa (1401-1464) antecipou a moderna metafísica da mente, eleva o homem, com o aprofundamento da concepção metafísica moderna, à dignidade do melhor intérprete da natureza. Grande impulsionador do neoplatonismo e do hermetismo, continuará a valorização do homem, chamando à alma humana a «cópula do mundo».

Uma nova razão estética vai emergindo paulatinamente. Pico della Mirandola (1462-1494) escreve o De Hominis Dignitate, o primeiro grande manifesto da liberdade do homem. A par desta nova razão estética surge também uma nova concepção do mundo provocada pelo neoplatonismo, que inflectia uma nova natureza em que se esboçava a metamorfose da razão estética numa nova razão técnica.
A idade moderna estava pronta a avançar.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Da fronteira de Deus à redescoberta do religioso

A palavra "fronteira de Deus" pode parecer um absurdo, pois, se Deus é omnipotente não há para ele qualquer fronteira. Na realidade, o que a humanidade tem vindo a fazer de há 150 anos para cá, é aumentar a sua fronteira para com Deus, eliminando progressivamente de suas vidas a noção de religião e de Deus.

Em consonância com os factos, o desligamento de Deus provoca o vazio pavoroso que habita na alma do homem dito moderno. Sem ideias, sem objectivos, sem interesses fortes, desenraízado, amorfo e conformista, fortemente formatado pelas falácias do progressismo e do naturalismo.

Martin Buber, filósofo austríaco, chamou a atenção para o estado lastimoso da palavra Deus. Dizia o mesmo que era a palavra mais vilipendiada de todas.
Em seu nome (de Deus) se matou e mata, se morreu e morre. Outros houveram ainda que enlouqueceram e ainda enlouquecem, como sejam os seguidores de Hegel, Feuerbach, Rousseau, Marx, Nietzche e outros. O que estes modernos pensadores nunca entenderam foram as palavras de S. Tomás de Aquino, que teve o cuidado na sua Summa Theologiae logo no início de esclarecer que não pretendia esclarecer o que era Deus, mas sim o que não era.

Nos meados do século XIX, vários pensadores europeus estavam convencidos de que a religião iria desaparecer e que haveria alternativa a Deus. As suas previsões quase que aconteciam, se é que não aconteceram já, mas o regresso do religioso é inevitável.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A modernidade é originária da Idade Média

A Idade Média está na moda. Em particular, a de expressão ocidental latina.
Tem sido muitas vezes considerada como uma página em branco no ordenamento do tempo e do mundo, consideração que é totalmente falsa. A designação de «média», uma suspensão do movimento de progressão, encravada entre a Antiguidade e a Modernidade, cujo processo e progresso relativizava tudo o que a precedeu.



Tal como a modernidade em relação à antiguidade, também o pós-modernismo tende à inexorável relativização da modernidade. É um processo sem fim.
A Idade Média costuma ser situada entre os séculos V e XIV, no entanto, não faltam razões para mudarmos as balizas temporais. Na realidade, a Idade Média, romanticamente ampliada, duraria até finais do século XVIII.

Durante muitos séculos, diversas culturas, múltiplos povos (romanos, bárbaros,etc.), diferentes impérios, religiões diferenciadas, pulverização de línguas, fracturas políticas, uma série de protagonistas individuais e colectivos, filosofias diversas e teologias ortodoxas e heterodoxas, foram o fermento da Idade Média. Como se conseguiram consensos e atitudes que hoje conduziram ao entendimento sobre essa época? Sem qualquer sombra de dúvida, o Cristianismo foi o factor mais determinante para se conseguir amalgamar as diferentes correntes que existiram durante a Idade Média.

Um dos argumentos que mais conduziram ao denegrir da Idade Média foi considerar-se esse período como um estágio intermédio, que não preenche um lugar positivo e insubstituível na história, mais dedicado a Deus do que aos homens. Por isto mesmo, as filosofias do humanismo renascentista e a modernidade não vêem aí suficientemente afirmados os indeclináveis valores humanos. Nessa época, as razões de viver assentam apenas nos desígnios da fé e não nos da razão. Embora ultimamente se tenha feito esforços para corrigir essa inexactidão de independência entre a fé e a razão. A fé representa uma radical, natural e habitual atitude humana, sendo mesmo inerente ao exercício da própria razão. Por outro lado, aquilo a que se adere por fé constitui sempre uma expressão racional sobre algo que excede o ser humano,  e esse âmbito racional sobre que incide a fé, por ser geralmente muito vivenciado, tem no exercício da existência a sua própria prova de pertinência e razoabilidade.




A bíblia, que inspira largamente, mas não exclusivamente, a mundividência medieval, é uma mensagem racional que foi acolhida por diversas mundividências que integram a Idade Média, designadamente a greco-romana e a dos diversos povos bárbaros, num movimento de influência recíproca.
A razão medieval decorrente desse complexo caldeamento é diferente da razão antiga, que, aliás, se prestigiou ao ser assumida e, muitas vezes, excedida pela estruturação da racionalidade medieval. Também esta participou no desnvolvimento do logos que não se esgotou na razão antiga nem terminará com a razão moderna. As obras literárias dos antigos legaram à Idade Média muitos e indeléveis conteúdos, mas igualmente potenciaram muitos instrumentos de análise e estudo, como a lógica aristotélica.

O que tipifica fundamentalmente a razão medieval é a abertura ao infinito, contribuindo assim, para desenredar o poder de compreensão da finitude circular. Nesta perspectiva, a Idade Média é a percussora do modernismo. As primeiras universidades surgem precisamente nessa época, tornando-se numa referência fundamental do futuro. A medievalidade dá início a uma série de processos que viriam a desabrochar no modernismo. E o modernismo, por sua vez, lançou as bases para a decepção do pós-modernismo, cuja razão se revela frágil em demasia.

sábado, 4 de agosto de 2012

Quem vê ondas não vê electrões

No final do século XIX, era claro para muitos que a física atingira a sua total plenitude na explicação da natureza. Todos os fenómenos à escala daquilo que era mensurável ou observável tinham um enquadramento teórico considerado bastante satisfatório. Lord Kelvin foi um dos que predisse o esgotamento da investigação em física fundamental.

Duas pequenas nuvens pairavam e ensombravam ainda esse maravilhoso firmamento que lhe parecia ser a total explicação do universo em que vivemos: a hipótese do éter como suporte das ondas electromagnéticas, posta em causa pelos resultados negativos da experiência de Michelson-Morley; e a distribuição espectral da radiação do corpo negro, cujo tratamento teórico, através da termodinâmica e do electromagnetismo clássicos, conduziu a soluções fisicamente absurdas.

No entanto, os factos encarregar-se-iam de desmentir as mais redutoras visões, e as nuvens transformar-se-iam em colossais tempestades, que viriam modificar radicalmente a nossa visão da natureza. A teoria da relatividade de Einstein e a formulação da hipótese dos quanta, vieram revolucionar a física e dar o mote para o aparecimento de uma física nova, cuja teoria quântica revelava um microcosmos cheio de surpresas. Para além de que o determinismo e a objectividade da física clássica começavam a ser postos em causa.

No mundo quântico, as mudanças espontâneas não são permitidas ou toleradas, são inevitáveis!
A relação causa-efeito, tão fortemente enraízada no terreno da física clássica, perde todo o seu sentido. Os processos quânticos são inerentemente imprevisíveis e indeterminísticos, o que faz com que seja impossível prever com exactidão o comportamento futuro de qualquer sistema quântico.


Observar é perturbar:

A teoria quântica faz muitas previsões, só que estas mesmas previsões, reportam-se à distribuição global dos acontecimentos e não a acontecimentos individuais, ou seja, são as distribuições de probabilidade, e não os acontecimentos específicos, que são causalmente determinados.
Podemos exemplificar esta situação recorrendo ao exemplo clássico; dada uma amostra de material radioactivo, é possível - recorrendo a leis estatísiticas bem conhecidas - determinar muito aproximadamente o número que decairão na próxima unidade de tempo, mas é impossível dizer qual átomo ou átomos contribuem para esse número. Perante um determinado átomo instável, nada podemos dizer acerca do momento em que ele decairá espontaneamente. Observar é interagir. E interagir é perturbar. O que aqui poderia parecer um simples jogo de palavras assume no mundo quântico um papel absolutamente sui generis.

Não só a observação introduz uma perturbação incontrolável no estado do sistema quântico como é capaz de alterar a sua identidade manifesta.

A chamada dualidade onda-partícula, ou a desconcertante «ambidestreza» que as partículas quânticas evidenciam quando observadas é, de facto, uma das peculiaridades mais notáveis deste universo de estranheza que é o da realidade quântica. Esta «ambiguidade» é um dado essencialmente novo no panorama do conhecimento da natureza.

A partícula quântica manifestando-se, algumas vezes como onda e outras como partícula, ao sabor dos mecanismos da observação, é algo fundamentalmente irredutível a qualquer uma dessas entidades quânticas tal como as concebemos, e essencialmente distinto de tudo quanto se conhece na realidade macroscópica. Ressalve-se no entanto que, a partícula quântica não é um "camaleão" que se ajusta por subtil mimetismo às características do instrumento de observação ou ao estado de espírito ou à cor dos olhos do observador. É o instrumento de observação - basicamente inspirado no nosso pensamento de tipo clássico - que só está apto a reconhecer uma ou outra faceta de uma realidade virtualmente muito mais complexa e inatingível.