sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Democracia Nova - Alfredo Pimenta

«Felizes tempos aqueles em que a democracia era uma só. Não usava máscara; não usava pseudónimos ou heterónimos. Era uma só e andava com a cara ao léu. A gente conhecia-a, desviava-se dela, evitava-a, se não queria contactos; ou caminhava para ela de braços abertos, se pretendia embarcar com ela na Gôndola dos Sonhos.
Ninguém se enganava.
Tudo mudou. E a Democracia foi o algibebe, comprou não sei quantos fatos de diferentes cores e feitios, e anda por aí a jogar o esconde-esconde com os Povos inquietos e as almas indecisas.
Ora nos aparece espartilhada e dengosa como  vamp de cabaret ou star de cinema, ou nos desafia com os seus ares de cantárida insaciável, obscena e repugnante, ou nos surge envergando o mais rigoroso vestido de luto grave, comprido até aos tornozelos, afogado até ao queixo, amplo bastante para não deixar revelar as ancas de égua estafada...»


In "A democracia Nova - Alfredo Pimenta

A génese do fascismo

«Primeiro, o estado fascista nasceu da crítica sindicalista soreliana ao parlamento e à democracia socialista, em segundo lugar, da experiência de dissolução a que chegaram a autoridade e a unidade do Estado com as lutas irredutíveis das forças parlamentares e dos partidos seus protagonistas; em terceiro lugar, da experiência da guerra.
A crítica que o novo sindicalismo ia desenvolvendo - fruto da mordaz desvalorização que o marxismo fez de todas as artificiosas estruturas políticas não geradas pela profunda realidade económica ou que não aderiam às estruturas básicas da organização produtiva e aos interesses efectivos dos grupos sociais - esvaziou o estado parlamentar do seu conteúdo. De facto, demonstrou o afastamento ou, melhor, o contraste insolúvel entre nação e estado, entre os cidadãos, em que, historicamente e sob todos os pontos de vista, se concretizam a vida do estado e os poderes que em regime parlamentar se presume que unem e unificam esses cidadãos numa consciência única e numa vontade política ou universal. Crítica conhecida, que atinge principalmente o conceito de representação, pondo-lhe a nu o carácter convencional e ilusório.»


In "Para a compreensão do Fascismo" - Organização António José de Brito